Vulnerabilidade

 por Paula Cardoso Mourão

O presente artigo é um trecho das anotações extraídas do relato sobre a Conferência Mundial Anual de Educação Terapêutica e Terapia Social realizada no Goetheanum em outubro de 2012, com a participação de 60 representantes de 50 países. O tema tratado foi proposto pela coordenação da Seção de Educação Terapêutica, por tratar-se de um assunto muito atual. O relator do tema foi o Sr. Andreas Fischer, coordenador da Graduação em Educação Terapêutica e Terapia Social na Suíça, e parte do Grupo Coordenador do Conselho Internacional de Pedagogia Curativa e Terapia Social do Goetheanum. Baseadas em anotações em espanhol realizadas pela educadora terapeuta argentina Doris Unger, complementamos e elaboramos o texto em português. Em virtude do XI Congresso Brasileiro de Medicina Antroposófica, a ser realizado de 3 a 6 de julho próximo, tendo como tema ‘Saúde e qualidade de vida’, decidiu-se publicar este trecho na íntegra.

__________________________

A vulnerabilidade é visível nas crianças, jovens e adultos em qualquer situação; todos nós somos vulneráveis em nossa existência; as instituições também podem ser/estar vulneráveis, até a nós mesmos. O ser humano, pelo fato de ser humano, já o é. Ainda mais quando  trata de acompanhar um futuro, assumindo o destino de outro ser humano. É trabalho dos terapeutas e educadores aproximar-se de pessoas que são/estão vulneráveis; eles estão em contato com isso e, aonde são chamados, têm a tarefa de dar a essas pessoas acolhimento e proteção, mas também promover a autonomia e a autodeterminação.  Numa instituição sempre se encontram pessoas especialmente vulneráveis. Mas, se uma delas sai da instituição, depois de certo tempo e em outro contexto pode parecer outra pessoa. Devemos estar atentos a estes fenômenos.  Acontece que, como acompanhantes do caminho desses seres humanos, os terapeutas muitas vezes nem se dão conta de que elas deveriam/poderiam desenvolver-se mais – fato que hoje em dia é muito mais claro! Mas há que desenvolver uma sensibilidade para isso. Muitas pessoas, também educadores ou terapeutas, sofreram em suas biografias; e, da mesma forma, aquelas que não estão conscientes disto – as pessoas atendidas.

A vulnerabilidade pode ser analisada em quatro níveis:  das pessoas atendidas – crianças, jovens e adultos;  dos colegas de trabalho;  das instituições;  da Antroposofia.

Vulnerar não é só causar dano, ferir/machucar, mas também não levar a sério ou não estimular a outra pessoa. Esta profissão trabalha com a vulnerabilidade; tentamos que o outro se abra, se solte. Mas, se ele o faz, torna-se mais vulnerável. Por outro lado, quando alguém se fecha, aparentemente não parece vulnerável. Então, o quanto abrir-se?

Quando se trabalha com pessoas em vulnerabilidade, deve-se ter preparo para trabalhar as próprias feridas. Ou seja, quando o profissional se depara com uma pessoa com uma ferida aberta, suas próprias feridas não resolvidas podem abrir-se novamente e aparecer.  A pessoa atendida também pode gerar forças para o profissional desenvolver ou lidar com suas próprias feridas. Assim, percebe-se logo se sua ferida se tornou força para a atividade terapêutica ou se ele sucumbiu à sua dor! Quando o ser humano se abre, também se expõe a críticas e é ferido. Sempre que se mostra a individualidade, também é possível aparecer uma ferida. As feridas não são evitáveis na vida moderna; é necessário criar um clima cuidadoso nos grupos e, se possível, trabalhar as ofensas. É uma grande possibilidade de trabalho em grupo, principalmente quando se trabalha conscientemente pela mesma causa.

Como, então, adquirir forças para conseguir perdoar danos e feridas?

Que possibilidades existem, por meio da Educação Terapêutica antroposófica, ao se acompanharem seres humanos com deficiência e que, ainda por cima, estão sujeitos à vulnerabilidade social e financeira nos casos dos países em desenvolvimento?  Como se pode realmente fortalecer essas pessoas?

Como se pode realizar conjuntamente um trabalho com relação à vulnerabilidade?

Que tipo de estruturas sociais queremos desenvolver para sanar feridas?

O que se deve fazer para trabalhar melhor em conjunto?

Desenvolver o melhor possível o ser humano sob a própria responsabilidade e o real escutar podem ser bons caminhos.

No Havaí, investigou-se o tema da resiliência observando pessoas desde a infância, por 40 anos. Elas foram criadas em condições muito difíceis, e mesmo assim se desenvolveram assombrosamente bem; tanto, que a partir daí se criou o conceito ‘resiliência’, ou seja, “a força com a qual é possível enfrentar dificuldades, ou resistência psíquica ante influências psicossociais”.

Pode- se analisar o desenvolvimento da própria criança: ela está sujeita a causas negativas – o risco –, mas também a causas positivas – a proteção.  A criança se desenvolve entre ambas! Isto quer dizer que há um jogo entre risco e proteção.

No risco há três tipos de vulnerabilidade:

1)     O que a criança traz no nascimento; sensibilidade; uma tendência à histeria; ou ainda, em casos graves, uma deficiência.

2)     A vivência que experimenta durante seu desenvolvimento, o que vive em sua infância de acordo com as influências externas, dos familiares, etc.

3)     O estresse produzido pelo meio ambiente em que vive, ou seja, os causadores do mesmo, seja abandono, pobreza, álcool, etc.

Com respeito à proteção, também há três fatores diferentes:

1)     Proteção direta da criança, o amparo que é dado por pessoas próximas.

2)     Fatores de resiliência – condições psicológicas ou internas da própria criança.

3)     O entorno da criança, o meio ambiente em que ela vive.

Algumas considerações extraídas:

  • As crianças se desenvolvem muito bem mesmo quando há fatores de risco.
  • Que tipo de inter-relações estabelece a criança no ambiente em que vive ?

Qual é o papel do educador e do terapeuta nisso tudo? Como eles podem atuar com as dificuldades que se lhes apresentam? Tornar-se ativos e favorecer que as feridas se transformem em fatores de força! Isso todos nós conhecemos da própria biografia; esta é a história de muitos dos próprios educadores ou terapeutas. Se o profissional é do tipo que se lamenta durante toda a vida sobre suas feridas, esta atitude não trará frutos para as pessoas com as quais trabalha.

Como é possível acompanhar pessoas de tal forma que suas feridas se tornem fatores de fortalecimento?

Se o profissional tenta lidar com as dificuldades ou as evita, isso gera mais ou menos força nele mesmo, e também nas pessoas atendidas.

Outra forma: são eles ativos em tentar conter um impulso? Nem sempre se consegue fazê-lo, praticar o ‘não fazer’.

Na criança, a oscilação entre o risco (ao qual todos nós estamos expostos) e a proteção gera, em cada uma, capacidades para o futuro!

Sugere-se aplicar a inclusão entre colegas: como eu me transformo para incluir o outro?

A vulnerabilidade também é percebida nos pais, que antigamente não eram tão considerados/incluídos como parte do processo.

As pessoas atendidas falam de si. Uma senhora expressou: “Não quero ser o trabalho de ninguém!” Realizar este trabalho de suplantar as feridas, impossíveis de evitar, desenvolve no ser humano a capacidade de empatia perante pessoas em vulnerabilidade, colegas, pais, diretores.

Também se pode comparar o desenvolvimento da criança com o de uma organização.

As instituições antroposóficas são vulneráveis por serem diferentes, pelo pré-julgamento que o mundo faz delas. O que se pode fazer para mostrá-las ao mundo e fazê-las ganhar força?

Algumas medidas indicadas: usar a mesma linguagem que o mundo legal/convencional; convidar instituições de âmbito sociopolítico educativo a conhecer o trabalho; a ser instituições organizadas; convidar os profissionais a aprofundar seus estudos em Antroposofia, a fim de poderem explicar a interessados sobre esta sustentação para o trabalho e serem formados em suas áreas de atuação.

Não se trata de proteger-se como instituição, e sim de mostrar aos outros os tesouros da Antroposofia, que norteia os trabalhos, e aprender do mundo convencional com humildade.

Outras Indicações: ter segurança da própria identidade;  ter abertura, mas também limitar-se; proteger-se – sim, é necessário;  compartilhar, fazer intercâmbio com outros profissionais /organizações;  diálogo aberto com a comunidade;  ser autêntico;  incluir os familiares;  levar a sério os medos;  ter um trabalho ativo e em equipe;  oferecer oportunidades de trabalho para a comunidade ao redor.

Vulnerabilidade na gestão das organizações sociais de base antroposófica
de atendimento a pessoas com deficiência

(Observação: em verdade, este conteúdo poderia ser transposto para qualquer outra organização social.)

Foram realizados grupos de trabalho com diferentes enfoques na questão da gestão administrativa e de pessoas e as principais conclusões foram:

•    De modo geral, em todo o mundo há grandes mudanças nesta área; percebe-se uma maior profissionalização.

•    Foram trilhados caminhos até se atingir a boa qualidade do trabalho que se apresenta hoje, principalmente na Europa, e isso quer dizer que cada um deve mostrar suas competências conforme seu lugar de trabalho; ou seja, tratando-se de Educação Terapêutica, o profissional deve ter formação na área. Tratando-se de direção ou gestão administrativa, o gestor ou representante legal deve ter curso ou formação de gerenciamento na área da Educação ou na área Social, e assim por diante.

•    Em muitas instituições, trabalha-se com a ‘delegação dinâmica’; isto quer dizer que pequenos grupos trabalham determinados temas – pessoas entendidas naquele assunto – e depois devem apresentar ao grupo colegiado um relato detalhado ou decisão sobre o que foi trabalhado num tempo predeterminado.

•    Perigos da gestão: que se contratem diretores ou representantes legais distantes da Antroposofia e se perca o rumo da instituição e o corpo colegiado já não se sinta representado.

•    A questão da confiança foi um tema importante para todos. A confiança não existe mais ‘simplesmente’ ou ‘porque sim’, mas porque a pessoa a quem se delega determinada tarefa (gestão financeira, por exemplo) demonstra ter as competências para ser depositária da confiança de todos.

•    A confiança deve ser cuidada e trabalhada; ela requer abertura e clareza em tudo o que é feito.

•    Além disso, para a confiança se requerem relatos ou notícias periódicas dos diferentes grupos de trabalho, representantes legais e diretores.

•    É necessário cultivar valores comuns entre todos os envolvidos com o trabalho. Nas instituições que foram fundadas por pessoas idealistas e entusiastas, e onde depois se decide incorporar um profissional executivo, os valores do princípio devem ser alinhados, pois do contrário eles se perdem completamente. Também é preciso atentar às mudanças da legislação com o passar dos anos, à Convenção Universal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, às novas formas de trabalho; é também necessário rever os ideais da fundação, adaptar-se à realidade sociopolítica, à legislação local para as deficiências e cultivar o respeito pela individualidade das pessoas envolvidas no trabalho (neste caso, dos atendidos e dos terapeutas).