Moradias na Europa

Moradias para Pessoas com Deficiência na Europa

por  Paula C. Mourão

De forma geral, este texto refere-se aos trabalhos realizados na Alemanha, Suíça, Holanda e Portugal em cerca de 30 instituições visitadas de 1999 a 2012. 

Para tratar de Moradias será necessário mencionar também o caminho escolar e profissional de pessoas com deficiência.

Na Europa, diversas moradias já completaram 60 anos de existência. Ao longo destes anos, muitas outras surgiram e continuam surgindo, cada uma com sua proposta específica, estrutura, número de pessoas atendidas ou moradores. É importante salientar que, mesmo com toda a experiência, as instituições da Europa continuam buscando sempre novas formas e atualização dos trabalhos oferecidos, no intuito de tornar as pessoas com deficiência cada vez mais protagonistas de suas próprias vidas e acompanhando o movimento mundial da inclusão; mas claro, avaliando muito bem cada passo antes da concretização.

Estas instituições podem ser específica ou simultaneamente: 

  • Comunidades de convivência;
  • Oficinas produtivas;
  • Oficinas terapêuticas;
  • Escolas profissionalizantes para jovens e adultos;
  • Escolas pedagógicas para jovens e adultos;
  • Centros culturais;
  • Estabelecimentos comerciais;
  • Promoção da participação nas mais diversas atividades da sociedade.

O número de moradores nas Comunidades de Convivência ou Camphills (este cultiva uma vida mais ligada à espiritualidade baseada na Antroposofia) varia de 5 a 500 moradores.

A proposta principal é criar um espaço onde pessoas com deficiência possam se desenvolver plena e dignamente, ter qualidade de vida – considerando-se hábitos e ritmos indicados para uma vida saudável, reconhecimento, instalações boas de moradia -, atendimento especializado, serem produtivas e ativas dentro de suas capacidades, habilidades e interesses e que possam exercer a cidadania, mesmo dentro de suas condições; possam ter seu círculo social de preferência e ao mesmo tempo interagir com a comunidade local.

Na Europa, o olhar para a continuidade do desenvolvimento do indivíduo é um grande diferencial em relação ao Brasil. Quando a deficiência é detectada na infância, a criança já é encaminhada para tratamentos e escola especializada conforme seu grau de comprometimento – moradia ou externa.

Seu desenvolvimento é acompanhado e ela pode mudar de escola a medida que vai vencendo determinadas dificuldades (na Alemanha, por exemplo, são 04 níveis).

Existem também escolas inclusivas – que necessitaria de um outro texto.

Na adolescência, então, esta pessoa faz o Ensino Médio Regular, ou Ensino Médio Especial com as matérias teóricas ligadas à prática. Por exemplo:  química ligada à culinária, matemática ligada ao dinheiro, física relacionada à marcenaria, …a fora as artes em si, incluindo a música, que são sempre um alicerce para a vida anímica (dos sentimentos ) do ser humano.

Quando o caminho de um jovem indica que será necessário continuar num ambiente “especializado ou protegido”, então ingressa numa instituição – moradia ou não – e passa por cursos ou experiências ligadas ao trabalho prático. A família, de preferência junto com o jovem, escolhe a instituição e ali ele experimenta por um ou dois anos, todos os ofícios oferecidos, para ver com qual se identifica.

Escolhido um deles, ingressa num curso profissionalizante, com duração média de 03 anos , durante os quais aprende tanto a prática quanto a teoria e é submetido a exames para serem certificados seus conhecimentos adquiridos. Concluído o curso, o jovem recebe seu certificado e pode torna-se então profissional em sua área,  podendo trabalhar na oficina daquela organização ou em outro lugar como um funcionário contratado. É importante que entendam que fazem parte de um todo e que servem à sociedade; por isso precisam entender os processos e o circuito completo daquilo que é produzido com seu trabalho de forma ampla. E todo esforço e diferentes adaptações de ferramentas serão feitos para que o jovem consiga ter êxito em sua tarefa !

Ou seja, diferente do Brasil até há pouco, as pessoas com deficiência também podem ter um Plano de Vida Profissional, com metas, objetivos; e são sempre consultadas, e seus desejos, orientados, acompanhados e respeitados. Ouvir o “cliente” é um lema fundamental para um trabalho eficaz.

As oficinas oferecidas são determinadas por cada organização ou podem ser um centro produtivo, como são os casos da Troxler em Wuppertahl / ou também em Berlim, na Alemanha, que empregam jovens e adultos de várias instituições da região.

As oficinas variam muito, segundo a capacitação dos profissionais envolvidos, podendo chegar a 30 modalidades! Todas são supervisionadas pelo Ministério do Trabalho e aquelas que oferecem risco possuem uma placa na entrada informando o tempo sem acidentes. Geralmente, segundo os gerentes, nestas oficinas é que ocorrem menos acidentes se comparado com oficinas convencionais.

Algumas delas:

  • Padaria (que serve à comunidade ou demanda externa, como escolas, hotéis, restaurantes) Costura (conserto ou confecção)
  • Marcenaria (brinquedos, utensílios domésticos, mobiliário, reparos)
  • Gráfica (que serve principalmente as escolas – cadernos)
  • Velas
  • Lustres
  • Couro
  • Conserto de Telhados
  • Metalúrgica – peças para empresas
  • Mão de Obra para montagem de produtos encomendados por diversas empresas
  • Agricultura
  • Tecelagem (nas suas mais variadas possibilidades)
  • Oficina Mecânica
  • Bicicletaria
  • Serviços de Escritório
  • Culinária (encomendas de bolos, biscoitos, salgados para festas …)
  • Artes (pintura, cerâmica…)
  • Lavanderia

Além do trabalho nestas oficinas, que permite inclusive o trabalho das pessoas mais comprometidas, existem aquelas pessoas que são contratadas por empresas.

Estes podem morar em instituições, mas normalmente existe a possibilidade, para todos eles, de participarem de orquestras especiais ou municipais ou outras, cursos, esportes, viagens, debates sobre seus direitos, atendimentos terapêuticos, grupos de lazer… conforme seus interesses.

A pessoa pode também decidir mudar sua vida depois de determinado tempo e será orientada e acompanhada para tal mudança juntamente com a família.

Sobre moradias, existem as:

Moradias coletivas

Cada pessoa possui seu quarto ou divide com um colega, e na mesma casa pode haver vários quartos, e ser coordenada por dois terapeutas, que podem tanto morar com eles ou trabalhar em turnos (forma mais moderna);

Moradias de aprendizagem para a independência coletiva

Um grupo de jovens com deficiência mora só e passa por supervisão durante o dia e finais de semana. Quando a casa está situada em uma cidade, então os jovens devem ter sempre registrado seu paradeiro (agenda) e levar consigo informações a seu respeito;

Moradias de aprendizagem para a independência individual

Nesta fase, um jovem ou adulto com deficiência deve aprender a dar conta de sua organização e seus compromissos e “arcar” com as consequências, quando, por exemplo, perde o horário do trabalho; e continua a receber supervisão;

Moradias Individuais

Estas podem situar-se dentro de uma instituição ou em uma construção pertencente à instituição, mas localizada fora dela (geralmente na cidade), ou em casa de pessoas que se dispõem a acompanhar a vida desta pessoa – quarto externo, como é o caso de Weckelweiller/ Alemanha;  ou ainda

Moradias independentes

Neste formato, estas pessoas vivem totalmente independentes em seus próprios apartamentos.

Estes recebem supervisões esporádicas ou quando/se necessário.

Moradias de casais

Residência onde podem viver mais de um casal e estes recebem assessoria semanal ou quando necessário.

Moradia coletiva para 3ª idade

Em algumas Comunidades de Convivência ou Camphills existem também moradias específicas para a 3ª idade. Nelas, as pessoas com deficiência já estão aposentadas, possuem apartamentos privados e recebem cuidados terapêuticos ou médicos mais intensos, têm atividades mais lúdicas ou culturais, sua agenda é bem moderada e podem necessitar de acompanhante individual.

Alguns exemplos de lazer, trabalho e moradia:

O Centro Cultural de Zurique foi fundado por pais e funciona como referência para os jovens da cidade.

Fazem “Happy Hour” após o trabalho ou estudo, com comes e bebes sem álcool.

Aos finais de semana há bailes, festas, cinema, teatro, bate papo… e a programação é mensal, impressa com escrita grande e de fácil compreensão, figuras que ilustram e elucidam o conteúdo – comunicação apoiada.

Sankt Jackob´s é um restaurante no centro de Zurique, onde é possível degustar os mais deliciosos pratos, todos preparados por adultos com deficiência, coordenados por maitres e onde pode-se ser bem atendido por pessoas com e sem deficiência. Além disso, é possível vê-los trabalhando através da parede de vidro da cozinha, que dá para a rua.

Schlosshamborn é uma das maiores instituições da Europa, onde vivem cerca de 500 pessoas – quase uma cidade.

Trata-se de uma fazenda com inúmeras construções, escola regular que atende 1.200 alunos de toda a região, chegando a ter 05 classes de cada série/ano, sendo que a 5ª de um mesmo ano serve às crianças com deficiência – também transtornos de comportamento. Neste mesmo lugar há clínica de tratamento oncológico, asilo de idosos onde trabalham jovens e adultos com deficiência, oficinas produtivas e de aprendizagem, restaurante, mercado, moradias nas diversas formas, agricultura, produção de queijo, clínica médico/odontológica – também para atendimento externo – diversos cursos avulsos e de capacitação profissional.